Folhinha Interparoquial nº 706 de 28 de março a 5 de abril de 2021
- Divino Salvador de Nogueiró.
- Santa Eulália de Tenões
- S. Pedro de Este
Intenções das missas e informações das 3 paróquias:
Folhinha Interparoquial nº 706 de 28 de março a 5 de abril de 2021
Folhinha Interparoquial nº 705 de 22 a 28 de março 2021
Paróquias de:Encontro de Guias do Núcleo de Braga.
Folhinha Interparoquial nº 704 de 15 a 21 março 2021
Paróquias de:“Errare humanum est, perseverare autem diabolicum”
(“Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico”)[1]
O título deste artigo seria, só por si,
motivo para uma reflexão mais profunda quanto à sua origem e autoria, mas aqui
quero utilizar esta expressão, cujo autor se desconhece; que alguns consideram
como um ditado popular, mas a verdade é que ela foi usada, com algumas variantes
textuais mantendo, na essência, o significado, por São Jerónimo - Epist. 57,11
- (347-420), Santo Agostinho (354-430), Venerável Beda (673-735) e São Bernardo
(1090-1153).
O importante é que este título permite-me
perspetivar o desafio que me foi lançado sobre a “pedagogia do erro no escutismo”,
tendo contraponto o pensamento de Theodore Roosevelt «o único homem que
nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma. Não tenha medo de
errar, pois aprenderá a não cometer o mesmo erro duas vezes», o 26º
presidente dos EUA (1901-1909), que Baden-Powell refere no “Escutismo para
Rapazes”, página 70, edição de 2007, como sendo um homem que «também tinha
fé na vida ao ar livre (...) Quando jogardes, jogai forte; e quando
trabalhardes, trabalhai bem. Mas não permitais que os jogos e desportos vos
prejudiquem os estudos».
O método escutista permite que o jovem
seja o protagonista da sua educação, desde logo pela autonomia e liberdade que
goza com o sistema de patrulhas e as dinâmicas dos diversos conselhos, onde
cada um deles assume as suas responsabilidades na conceção, negociação,
preparação, realização e avaliação de projetos e programas, mas também o
enquadramento nos valores da promessa e Lei, mística e simbologia e missão e princípios
do escutismo. Pela teia de relações que estabelece consigo próprio (progresso
pessoal), com os outros membros da patrulha, da unidade e do agrupamento, com
os dirigentes e animadores, com as comunidades onde se integra, com a natureza
que o acolhe e com Deus - o Amigo entre os amigos -; finalmente, pela forma
como aprende e como ajuda os outros a aprender.
Neste contexto de autoeducação, o erro é
uma possibilidade permanente, mas não podemos prolongar a conceção,
enriquecimento e preparação da atividade de forma indefinida, pois quando
chegasse o momento da realização o tempo adequado poderia já ter passado. Assim,
a fase de enriquecimento, que é uma linha de tempo e não um ponto no tempo, é
vital para a redução do risco.
Há muitos anos, em 1649, João Amós
Coménio publicou a sua “Didática Magna”, também conhecido pelo subtítulo
“Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos” define que: «Aprende-se
a fazer fazendo. Os mecânicos não detêm os aprendizes nas suas artes de
especulações teóricas, mas põem-nos imediatamente a trabalhar, para que
aprendam a fabricar fabricando, a esculpir esculpindo, a pintar pintando, a
dançar dançando, etc…» (p.320), nós poderíamos acrescentar aqui as nossas
mais diversas competências e atitudes escutistas ou todo o aprender fazendo do
método. Claro que Coménio, evocando Séneca (4 aC-65 dC – Epist. VI, 5),
lembra-nos as palavras do filósofo sobre este tema «é longo e difícil o
caminho por meio de regras, mas breve e eficaz por meio de exemplos»
(p.320). Ambos parecem ter lido B.-P., vários séculos antes da publicação do
“Escutismo para Rapazes”!
Todos sabemos que as crianças quando
aprendem a andar caem uma boa centena de vezes e isso é natural, mesmo assim,
os pais protegem as esquinas do mobiliário e outros elementos semelhantes e
nunca põem os filhos sobre um muro para aprender a andar. É esta gestão do erro
e do risco que devemos dominar.
Nos seus percursos de aprendizagem o
escuteiro tem que experimentar o erro para depois, integrando a aprendizagem
realizada, corrigir e melhorar a sua performance. O erro é um elemento
importante no processo de melhoria. Esperemos que nenhum escuteiro tenha de
reproduzir a justificação que Thomas Edison, em 1910, deu a um jornalista: «eu
não falhei 10 mil vezes. Apenas descobri 10 mil maneiras que não funcionam.»
[1] Este tema também foi
abordado em artigo semelhante na revista “Flor de Lis”, no mês de fevereiro de
2021.
A Última Mensagem de Baden Powell [1]
A Última Mensagem de Baden-Powell[1]
Na minha primeira crónica sobre o
fundador do escutismo, publicada neste espaço, no dia 23 de fevereiro de 2012,
escrevi, no segundo parágrafo: «O
Escutismo vive o dia do seu fundador, também designado, em algumas associações,
como o dia do pensamento, refletindo sobre a importância que este ato criador
teve na evolução da juventude e da sociedade».
Este ano, por necessidades sanitárias,
seja-me permitido usar o termo “necessidades” em vez de “imposições”, já que o
termo utilizado implica um sentimento de pertença, de “estar no mesmo barco”; assim,
sempre me sinto como parte da solução e não como vítima do processo. A pandemia
que hoje, leia-se, há um ano, nos atormenta é um problema de todos e que a
todos devia convocar para cada um, à sua maneira, procurar deixar o seu
contributo para a humanidade superar esta batalha.
Os atos comemorativos, no passado dia 22
deste mês, dia do nascimento da Baden-Powell, foram marcados por inúmeras ações
de reflexão e partilha nas redes sociais e nas plataformas de videoconferência.
Neste contexto, tive o grato prazer de
participar numa tertúlia sobre o fundador, organizada pela Junta Regional do
Algarve, na qual participaram quase 400 escuteiros, que, sob o tema “O Homem a
quem o mundo deve o Nobel da Paz”, apresentava um programa interessante e
desafiante:
A proposta de escutismo que B.-P. fez em 1907 continua atual?
·
A atual implementação do escutismo continua a seguir as
"raízes" que B.-P. nos deixou?
·
Quais as maiores diferenças do escutismo em 1907 e em 2021?
A influência do movimento escutista na Sociedade
·
Qual a importância do escutismo para os decisores políticos?
·
Uma sociedade com escutismo é uma melhor sociedade?
·
O escutismo para as várias faixas sociais?
Escutismo, um movimento de Paz
·
O escutismo é ou não um movimento de Paz?
·
O escutismo é ou não o maior movimento de jovens do mundo?
·
O escutismo é ou não o maior movimento de paz no mundo?
B.-P., o homem a quem o mundo deve o Nobel da Paz
·
A “obra” de BP foi de dimensão suficiente para receber um Nobel da
Paz?
·
A carreira militar terá sido um entrave a esta atribuição?
·
Deveria a Organização Mundial do Movimento Escutista receber este
reconhecimento?
Em abono da verdade, devo também afirmar
que o tema geral sobre uma hipotética atribuição do prémio Nobel da Paz foi
lançado muito antes de se ter conhecimento da apresentação da candidatura da
Organização Mundial do Guidismo e do Escutismo a este prémio, pela deputada
norueguesa Solveig Schytz.
Deixo que os estimados leitores que se
apropriem do pensamento que o Baden-Powell deixou, a todo o movimento
escutista, neste seu “testamento espiritual”:
«Caros escuteiros:
Se já vistes a peça Peter Pan, haveis de
recordar-vos de como o chefe dos piratas estava sempre a fazer o seu discurso
de despedida, porque receava que, quando lhe chegasse a hora de morrer, talvez
não tivesse tempo para o fazer. Acontece-me coisa muito parecida e por isso,
embora não esteja precisamente a morrer, morrerei qualquer dia e quero
mandar-vos uma palavra de despedida.
Lembrai-vos de que é a última palavra
que vos dirijo, por isso meditai-a.
Passei uma vida felicíssima e desejo que
cada um de vós seja igualmente feliz.
Creio que Deus nos colocou neste mundo
encantador para sermos felizes e apreciarmos a vida. A felicidade não vem da
riqueza, nem simplesmente do êxito de uma carreira, nem dos prazeres. Um passo
para a felicidade é serdes saudáveis e fortes enquanto sois rapazes, para
poderdes ser úteis e gozar a vida quando fordes homens.
O estudo da natureza mostrar-vos-á as
coisas belas e maravilhosas de que Deus encheu o mundo para vosso deleite.
Contentai-vos com o que tendes e tirai dele o maior proveito que puderdes. Vede
sempre o lado melhor das coisas e não o pior.
Mas o melhor meio para alcançar a
felicidade é contribuir para a felicidade dos outros. Procurai deixar o mundo
um pouco melhor de que o encontrastes e quando vos chegar a vez de morrer,
podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e
fizestes todo o possível por praticar o bem.
Estai preparados desta maneira para
viver e morrer felizes - apegai-vos sempre à vossa promessa escutista - mesmo
depois de já não serdes rapazes e Deus vos ajude a proceder assim.
O Vosso Amigo
Baden-Powell of Gilwell»
[1] Encontrado entre os papéis de Baden-Powell após a sua morte, 8 de janeiro
de 1941, cfr. Escutismo para Rapazes, Edições Flor de Lis, 3ª edição, 1968,
Barcelos, p. 303.
O “bicho”
Se alguém nos dissesse em 2019 o que estava
para vir certamente nenhum de nós acreditava. A pandemia dizimou milhões de
vidas, separou milhões de famílias, esgotou milhões de pessoas. Sem dúvida que
foi o maior desafio com que a humanidade já se deparou e, infelizmente, está
longe de se dar como vencida a “luta”.
Estamos todos juntos nisto, no entanto há
gente que prefere fechar os olhos e fingir que este pesadelo não está a abalar
o mundo. O egoísmo de quem não abdica de sair e prefere continuar a festejar
revolta-me mais do que nunca. Afinal de contas, como podem festejar sabendo as
consequências das ações irrefletidas e insensatas que tomaram? Como podem
festejar vendo o vizinho chorar a mãe e o amigo desolado porque perdeu o irmão?
Como é que conseguem festejar sabendo da exaustão de todos os da linha da
frente?
Em que mundo é que o egoísmo do ser humano
matou tanta gente? Alguns de nós esforçam-se 200% para ficar em segurança
porque alguns de nós não se esforçam nem 1%.
Toda a gente já está farta. Toda a gente quer
que a vida volte ao normal. Toda a gente quer ir tomar café com os amigos na
praça. Toda a gente quer voltar a abraçar aqueles que ama, mas a muitos de nós
isso foi roubado… e como a minha prima
Filipa diz “toda a gente quer e nenhum de nós pode, porque alguns de nós não
tentam...”
Como caminheira sinto saudades de ter uma
reunião, uma atividade ou um acampamento. Coisas tão simples que nunca achei
que me fariam tanta falta. Mas nós agora não podemos ter as típicas reuniões
nem as atividades nem os acampamentos. Temos que cumprir o nosso papel e
adaptarmo-nos - adaptação ou como lhe chamamos “lei do desenrascanço”, das
melhores coisas que o escutismo me ensinou.
Como estudante de medicina sinto saudades
de ter aulas práticas a sério, não por um ecrã. Tenho saudades de apanhar o
autocarro sem medos, almoçar na cantina e correr entre auditórios para chegar a
tempo a próxima aula. Custa-me ver o cansaço dos meus professores. O esforço
contínuo de todos.
Precisamos de ser uns para os outros e se não pudermos ajudar, ao menos
que não estorvemos.
MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2021
«Vamos subir a Jerusalém...» (Mt 20, 18).
Quaresma: tempo para renovar fé, esperança e caridade.
Queridos irmãos e irmãs!
Jesus, ao anunciar aos discípulos a sua paixão, morte e ressurreição como cumprimento da vontade do Pai, desvenda-lhes o sentido profundo da sua missão e convida-os a associarem-se à mesma pela salvação do mundo.
Ao percorrer o caminho quaresmal que nos conduz às celebrações pascais, recordamos Aquele que «Se rebaixou a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz» (Flp 2, 8). Neste tempo de conversão, renovamos a nossa fé, obtemos a «água viva» da esperança e recebemos com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo. Na noite de Páscoa, renovaremos as promessas do nosso Batismo, para renascer como mulheres e homens novos por obra e graça do Espírito Santo. Entretanto o itinerário da Quaresma, como aliás todo o caminho cristão, já está inteiramente sob a luz da Ressurreição que anima os sentimentos, atitudes e opções de quem deseja seguir a Cristo.
O jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa.
1. A fé chama-nos a acolher a Verdade e a tornar-nos suas testemunhas diante de Deus e de todos os nossos irmãos e irmãs
Neste tempo de Quaresma, acolher e viver a Verdade manifestada em Cristo significa, antes de mais, deixar-nos alcançar pela Palavra de Deus, que nos é transmitida de geração em geração pela Igreja. Esta Verdade não é uma construção do intelecto, reservada a poucas mentes seletas, superiores ou ilustres, mas é uma mensagem que recebemos e podemos compreender graças à inteligência do coração, aberto à grandeza de Deus, que nos ama ainda antes de nós próprios tomarmos consciência disso. Esta Verdade é o próprio Cristo, que, assumindo completamente a nossa humanidade, Se fez Caminho – exigente, mas aberto a todos – que conduz à plenitude da Vida.
O jejum, vivido como experiência de privação, leva as pessoas que o praticam com simplicidade de coração a redescobrir o dom de Deus e a compreender a nossa realidade de criaturas que, feitas à sua imagem e semelhança, n'Ele encontram plena realização. Ao fazer experiência duma pobreza assumida, quem jejua faz-se pobre com os pobres e «acumula» a riqueza do amor recebido e partilhado. O jejum, assim entendido e praticado, ajuda a amar a Deus e ao próximo, pois, como ensina São Tomás de Aquino, o amor é um movimento que centra a minha atenção no outro, considerando-o como um só comigo mesmo [cf. Enc. Fratelli tutti (= FT), 93].
A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14, 23). Jejuar significa libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo, a fim de abrirmos as portas do nosso coração Àquele que vem a nós pobre de tudo, mas «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14): o Filho de Deus Salvador.
2. A esperança como «água viva», que nos permite continuar o nosso caminho
A samaritana, a quem Jesus pedira de beber junto do poço, não entende quando Ele lhe diz que poderia oferecer-lhe uma «água viva» (cf. Jo 4, 10-12); e, naturalmente, a primeira coisa que lhe vem ao pensamento é a água material, ao passo que Jesus pensava no Espírito Santo, que Ele dará em abundância no Mistério Pascal e que infunde em nós a esperança que não desilude. Já quando preanuncia a sua paixão e morte, Jesus abre à esperança dizendo que «ressuscitará ao terceiro dia» (Mt 20, 19). Jesus fala-nos do futuro aberto de par em par pela misericórdia do Pai. Esperar com Ele e graças a Ele significa acreditar que, a última palavra na história, não a têm os nossos erros, as nossas violências e injustiças, nem o pecado que crucifica o Amor; significa obter do seu Coração aberto o perdão do Pai.
No contexto de preocupação em que vivemos atualmente onde tudo parece frágil e incerto, falar de esperança poderia parecer uma provocação. O tempo da Quaresma é feito para ter esperança, para voltar a dirigir o nosso olhar para a paciência de Deus, que continua a cuidar da sua Criação, não obstante nós a maltratarmos com frequência (cf. Enc. Laudato si’, 32-33.43-44). É ter esperança naquela reconciliação a que nos exorta apaixonadamente São Paulo: «Reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20). Recebendo o perdão no Sacramento que está no centro do nosso processo de conversão, tornamo-nos, por nossa vez, propagadores do perdão: tendo-o recebido nós próprios, podemos oferecê-lo através da capacidade de viver um diálogo solícito e adotando um comportamento que conforta quem está ferido. O perdão de Deus, através também das nossas palavras e gestos, possibilita viver uma Páscoa de fraternidade.
Na Quaresma, estejamos mais atentos a «dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam» (FT, 223). Às vezes, para dar esperança, basta ser «uma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença» (FT, 224).
No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolher-se para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura.
Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), «sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [no-la] peça» (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia.
3. A caridade, vivida seguindo as pegadas de Cristo na atenção e compaixão por cada pessoa, é a mais alta expressão da nossa fé e da nossa esperança
A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado... A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão.
«A partir do “amor social”, é possível avançar para uma civilização do amor a que todos nos podemos sentir chamados. Com o seu dinamismo universal, a caridade pode construir um mundo novo, porque não é um sentimento estéril, mas o modo melhor de alcançar vias eficazes de desenvolvimento para todos» (FT, 183).
A caridade é dom, que dá sentido à nossa vida e graças ao qual consideramos quem se encontra na privação como membro da nossa própria família, um amigo, um irmão. O pouco, se partilhado com amor, nunca acaba, mas transforma-se em reserva de vida e felicidade. Aconteceu assim com a farinha e o azeite da viúva de Sarepta, que oferece ao profeta Elias o bocado de pão que tinha (cf. 1 Rs 17, 7-16), e com os pães que Jesus abençoa, parte e dá aos discípulos para que os distribuam à multidão (cf. Mc 6, 30-44). O mesmo sucede com a nossa esmola, seja ela pequena ou grande, oferecida com alegria e simplicidade.
Viver uma Quaresma de caridade significa cuidar de quem se encontra em condições de sofrimento, abandono ou angústia por causa da pandemia de Covid-19. Neste contexto de grande incerteza quanto ao futuro, lembrando-nos da palavra que Deus dera ao seu Servo – «não temas, porque Eu te resgatei» (Is 43, 1) –, ofereçamos, juntamente com a nossa obra de caridade, uma palavra de confiança e façamos sentir ao outro que Deus o ama como um filho.
«Só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade» (FT, 187).
Queridos irmãos e irmãs, cada etapa da vida é um tempo para crer, esperar e amar. Que este apelo a viver a Quaresma como percurso de conversão, oração e partilha dos nossos bens, nos ajude a repassar, na nossa memória comunitária e pessoal, a fé que vem de Cristo vivo, a esperança animada pelo sopro do Espírito e o amor cuja fonte inexaurível é o coração misericordioso do Pai.
Que Maria, Mãe do Salvador, fiel aos pés da cruz e no coração da Igreja, nos ampare com a sua solícita presença, e a bênção do Ressuscitado nos acompanhe no caminho rumo à luz pascal.
Roma, em São João de Latrão, na Memória de São Martinho de Tours, 11 de novembro de 2020.
Escutismo, um Instrumento para o Desenvolvimento da Paz
Uma das perceções que há no movimento escutista
mundial está alicerçada na convicção expressa por Baden-Powell na abertura da
Conferência Internacional de Kandersteg e publicada na revista “Jamboree”, de
outubro de 1926: «A paz não pode ser garantida unicamente
por interesses comerciais, alianças militares, desarmamento geral ou tratados
recíprocos, a menos que o espírito de paz esteja presente na mente e na vontade
de todos os povos. Isto é uma questão de educação». É neste contexto que o escutismo se assume como
sendo um instrumento para o desenvolvimento da paz pela educação.
O programa educativo do Escutismo Católico
Português baseia-se em seis áreas de desenvolvimento: físico, intelectual,
afetivo, social, espiritual e do caráter. Neste conceito de educação integral,
bem à maneira da ancestral educação ateniense, «alma sã em corpo são»,
podemos verificar que, de forma direta, cinco destas áreas têm uma influência
muito relevante da parte da «alma sã», que hoje poderíamos designar como
a «cidadania».
A área do desenvolvimento intelectual permite ter
acesso ao conhecimento e colocá-lo ao serviço do “eu” e da(s) comunidade(s)
onde se insere, gerando assim uma produção de conhecimento. Com desenvolvimento
afetivo, crianças e jovens jovem experimentam que a racionalidade deve ser
complementada pelo “coração”, leia-se, pelo “Amor”. O quarto artigo da Lei do
Escuteiro «O Escuta é amigo de todos e irmão de todos os outros Escutas.»,
assim o pede.
Mas este tipo de relação entre o “eu” e o “outro”
também está presente na matriz espiritual de todas as religiões, por isso, a
colaboração e a paz entre os povos, surge com naturalidade; sendo, crianças e
jovens, chamados a dar este sentido às suas vidas e vivências, no caso dos
cristãos, à expressão do Evangelho: «Ama o teu próximo como a ti mesmo.»
(Mt 22, 39).
Na área do desenvolvimento social, crianças e
jovens habituam-se, com pequenos gestos - as “boas ações” -, a agirem,
solidaria e gratuitamente, em prol dos outros, fazendo emergir a compreensão,
cooperação e integração.
Os valores da Lei e da Promessa de Escuta proporcionam
aos escuteiros o desenvolvimento do caráter marcado pela honestidade, lealdade,
cooperação e sentido do outro, da natureza e de Deus, permitindo-lhes ser um
semeador de esperança e um construtor de paz.
Além disso, o método escutista, ajuda ainda estas
crianças e jovens a serem autónomas, a interagirem com os outros e a assumirem
as suas responsabilidades pessoais, sociais e religiosas.
Ora, sendo o Escutismo um movimento de educação não
formal cuja missão é de ajudar, crianças e jovens, a tornarem-se cidadãos
solidariamente ativos à luz da fé que professam, empenhados da construção de um
mundo melhor. Toda esta ação educativa é, sem dúvida alguma, um contributo
significativo para a habitabilidade da Terra e para a fomentação da Paz.
Por isto, e pela dimensão deste movimento, que
atualmente acolhe 54 milhões de escuteiros, distribuídos em quase todos os
países do mundo, só há seis países sem escutismo: Andorra, Cuba, Coreia do
Norte, Laos, Myanmar e China (embora haja escutismo em Hong Kong e Macau, duas
regiões administrativas especiais da República Popular da China), estima-se, de
forma muito prudente, que pelo escutismo já tenham passado 600 milhões de
escuteiros. Por isso, há muita gente que veria, de bom grado, que o escutismo
fosse reconhecido como como um Movimento Mundial que favorece a Paz. Sendo
natural que, de vez em quando, o seu nome seja sugerido para integrar a lista
de candidatos ao Nobel da Paz.
Este ano, a deputada do parlamento Norueguês, Solveig Schytz (https://www.facebook.com/solveigschytzvenstre/ - 25 de janeiro de 2021, às 03:27), propôs a Organização Mundial do
Movimento Escutista (OMME) e a Associação Mundial de Guias (WAGGGS) para este
prestigiado prémio.
Independentemente do que o futuro reserva
a este nobre ato, da iniciativa de uma antiga dirigente das Guias Norueguesas,
o movimento Escutista e Guidista deve sentir-se feliz e estimulado a fazer sempre
mais e melhor!
By: Pde Nuno Westwood